Amigo que chuta o amigo

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julioCaros leitores, revejo a história de um amigo porque para comparar e atribuir valores às coisas precisamos de lógica matemática (que não é atributo de todos), de coisas e de oportunidades. Para fazer isso com seres humanos, muitas vezes, precisamos de animais. Que complicada situação! Mas como é que se chuta um amigo? Talvez simples, não o reconhecendo mais à primeira vista numa situação onde, decididamente, se percebe que a violência é a única saída. Mas, o que é isto? Mas o mais interessante é saber se funciona.

Dizem que se assim agirmos (de má fé) ela se vira contra a gente, mas no geral, os bons recebem a violência sem terem feito nada para merecê-la. E descobri, antes melhor, constatei, mais uma vez, que ela é útil para o agressor, necessária, tem efeitos e principalmente, faz bem para o estado de espírito daqueles que a cometem. Mas se o cidadão é educado, na maioria das vezes, e que seja oportuno, resolve tudo sempre que possível por bem. Contrariamente, cidadão de bem resigna-se frente aos patifes e acredita que não passar raiva em casa relembrando frases e conversas pacifistas não é a mais nobre das virtudes.

Engana-se quem assim não pensar. Não necessitamos de viver em guerra com o mundo, mas para estes cidadãos, talvez, a violência dá bons resultados. Mas se uma vez dar errado e daí? Quantos cidadãos não levaram a pior nos ossos porque exactamente acharam que era um dever sagrado serem tão fiéis aos seus princípios, pacíficos quanto o próprio Ghandi, mas que por sinal morreu com três tiros sem reagir? E certamente, não reagiria, pois por fé, era munificente, apenas usava uma bengala e uma inofensiva túnica branca.

Entendo, caros leitores, que existe uma grande diferença entre quem não reage a uma agressão mesmo tendo igualmente condições de exercer a violência, porque procura dar mais uma oportunidade ao diálogo e, por outro lado, entre quem não reage a qualquer violência que venha a sofrer porque simplesmente se colocou na posição de não querer agir e renuncia a todos os meios para isso. Contudo, pacifista é quem tem condições de reajustar a violência sofrida e não o faz porque, neste quadro, fornece mais uma oportunidade para o entendimento. E se decidir retribuir, claramente, é muito humano.

Há violências que sofremos que é uma agressão descabida, injusta. E há uma violência que é exercida em resposta contra um agressor que pode ser justa retaliação, um simples acto de violência que machuca física ou moralmente o agressor e mostrando a ele que existem consequências para os seus desafios, quando se encontrava tranquilo pensando que nada lhe aconteceria. Justamente isso. Mais do que tranquilos, a maioria dos agressores que agem assim são insolentes.

Face a uma série de aborrecimentos foi assim que acabei chutando um amigo. Que pena! Ora vejam. No seu devido papel de guardião e com uma mordidela me abriu um rasgão na calça e um furo na perna com um dente afiado. No entretanto, fogosamente, levou um chute. Considero-me arrependido de ter chutado, tal era a confusão, o único amigo do lugar em que entrei, porque também senti, posteriormente, uma tempestade de pontapés na minha porta. Mas as coisas são assim na vida.

Acontece que nem eu poderia ter, de imediato, reconhecido o amigo, nem ele me vendo naquelas condições poderia me ter reconhecido. Mas espero que um dia possamos nos encontrar noutra situação. E foi assim que um amigo canino, de raça cuja essência e comportamento julgou ter-se mostrado melhor do que a maioria dos seres humanos e que se pretendeu ser superior a outros, creio eu, foi para um canto curtir suas dores, enquanto eu aqui em casa usava antibiótico no furo da perna e olhava, desiludido, o rasgão na minha calça.

De qualquer forma, louvável sua atitude e coragem de guardião de um local que ele, descrente, julgava não ser habitado por seres decentes. Pobre animal. Se ele soubesse das vilezas que guarda, certamente, teria sido meu grande aliado, pondo seus dentes junto do meu pontapé para o castigo dos possíveis malfeitores. Como vê, é assim, a violência funciona e faz bem ao espírito quando meditamos sobre tudo que acontece, posteriormente. E, infelizmente, lamento ter chutado um amigo pelo seu próprio total engano, arrogância e culpa, ao qual estamos todos, às vezes, sujeitos nas ocorrências da vida.

Júlio Neto

(Distrito de Mé-Zóchi)

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Cortesia do Grupo Pestana em SãoTomé e Príncipe

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